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Vários Monstros: continuidade não é apenas TI!

Muitas vezes, quando uma pessoa ouve falar em Continuidade de Negócios pela primeira vez, é comum que ela associe GCN (Gestão de Continuidade de Negócios) exclusivamente à proteção dos sistemas de TI da empresa. “Se estão falando de não parar a operação, isso deve ter a ver com blindar os sistemas contra falhas tecnológicas”, é uma conclusão natural.

Com a crescente dependência das empresas da tecnologia, não há dúvidas de que interrupções nos serviços de TI representam grandes ameaças. Casos de incidentes de cibersegurança, por exemplo, frequentemente ganham destaque na mídia devido ao impacto de longas paradas operacionais nas empresas.

No entanto, apesar da crescente relevância dos cenários tecnológicos, é importante lembrar que esses não são os únicos fatores capazes de paralisar as operações de uma empresa. Durante a pandemia de COVID-19, muitas empresas não enfrentaram problemas tecnológicos significativos, mas ainda assim sofreram interrupções significativas – seja pela impossibilidade de acessar seus locais de trabalho ou pelo elevado absenteísmo entre seus funcionários devido à COVID-19.

Um caso notável foi o da Boeing. Além de outras dificuldades enfrentadas pela companhia, a pandemia trouxe, ao mesmo tempo, uma queda na demanda de clientes (especialmente em relação à produção de aeronaves de passageiros) e dificuldades para manter a produção, tanto pela necessidade de fechar fábricas para garantir o bem-estar dos colaboradores quanto por problemas na cadeia de suprimentos, uma vez que seus fornecedores também sofreram para manter a produção nesse cenário.

Outros eventos também ilustram como fatores fora do controle tecnológico podem afetar drasticamente a continuidade dos negócios. Um exemplo marcante foi a greve dos caminhoneiros no Brasil, em 2018, que afetou gravemente a logística e o fornecimento de produtos essenciais para diversas indústrias. Durante esse período, muitas empresas, mesmo com infraestrutura tecnológica intacta, enfrentaram grandes dificuldades devido à escassez de materiais e produtos, à paralisação do transporte e ao desabastecimento de mercados. Isso demonstra que, embora a tecnologia seja crucial, a cadeia de suprimentos e os fluxos logísticos também desempenham um papel vital na continuidade de negócios.

Outro exemplo relevante aconteceu em 2021, quando um incêndio no data center da OVH na França causou a interrupção de serviços de hospedagem de sites e dados para milhares de empresas, incluindo grandes marcas globais. Embora a OVH fosse uma empresa especializada em tecnologia, a perda de infraestrutura crítica por conta de um evento físico e externo deixou claro que, em um mundo hiperconectado, um incidente como esse pode ter impactos devastadores, afetando não apenas a empresa diretamente envolvida, mas também todas as suas clientes e parceiros. Este incidente da OVH também nos lembra que mesmo empresas com utilizam soluções de tecnologia em nuvem estão sujeitas às adversidades de incidentes físicos, como incêndios, e precisam se preparar para este cenário.

Esses exemplos ilustram que, mesmo quando uma empresa opera internamente sem problemas tecnológicos, ela pode enfrentar paralisações graves devido a interrupções em sua cadeia de fornecedores, em sua infraestrutura física, na disponibilidade de seus colaboradores. Desde montadoras de veículos obrigadas a interromper linhas de produção por falta de peças específicas, até clientes de bancos que ficaram sem atendimento devido à paralisação de centrais de atendimento terceirizadas, os casos de interrupções externas são diversos e impactam diretamente a continuidade dos negócios.

Portanto, a Continuidade de Negócios não se limita à proteção do ambiente tecnológico. O consultor de continuidade de negócios deve ter uma visão holística da empresa, considerando ameaças que vão além da tecnologia, como as interrupções nos fornecedores, no acesso aos locais de trabalho ou na própria disponibilidade de colaboradores. É como traçar o plano de proteção de um castelo sem saber se a ameaça virá do mar, da terra ou do céu. A abordagem deve ser ampla, considerando todos os fatores que podem interromper a operação da empresa, dentro ou fora do ambiente tecnológico.

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